Diferentes práticas de meditação afetam áreas distintas do cérebro, diz estudo

Nos últimos anos, não foram poucos os cientistas que tentaram desvendar o poder da meditação. Por que, afinal, acalmar a mente nos torna mais alegres, saudáveis e tranquilos? O que acontece com nosso corpo enquanto meditamos? Essas mudanças — se é que há alguma — são duradouras? É possível controlá-las? Para responder a essas e outras perguntas, médicos, psicólogos e acadêmicos já fizeram de cobaia praticantes de yoga, voluntários como eu e você e até monges tibetanos.  

monge exame

Mas embora já se conheça muitos dos efeitos benéficos da meditação — melhora da atenção e da memória, redução do stress e, segundo um estudo recente realizado pela prestigiada Universidade Harvard, redução nos níveis de depressão e ansiedade, entre tantos outros — pouco se sabia acerca das mudanças que a prática produz no nosso cérebro. Até agora.

Uma nova pesquisa, realizada pelo Instituto Max Planck na Alemanha, revela que três tipos diferentes de meditação produzem mudanças físicas em regiões distintas do cérebro. Isso significa que cada “treinamento” mental — voltado, por exemplo, à concentração ou à compaixão — desenvolve uma parte específica do cérebro, da mesma forma que praticar esporte ou aprender um segundo idioma alteram sua anatomia.

cerebro

Os resultados do estudo foram publicados pela revista científica Science Advances e divulgados pelo blog de Alice G. Walton no site da revista Forbes.

Segundo Walton, as conclusões da pesquisa realizada pelo Instituto Max Planck são de “grande relevância para escolas, empresas e, é claro, para o público em geral”. Já imaginou poder esculpir o cérebro para desenvolver habilidades como compaixão, cooperação e resiliência?

(Spoiler: se você ainda acredita que meditar é para monges, vai se surpreender com os resultados do estudo. Até os pesquisadores ficaram impressionados.)

O estudo
Ao longo de nove meses, voluntários com idade entre 20 e 55 anos praticaram três tipos diferentes de meditação. Cada módulo teve três meses de duração.

O primeiro “treinamento” mental recebeu o nome de “Presença”, e foi inspirado no tipo mais popular — e estudado — de meditação: a concentração. Durante o estudo, os participantes aprenderam a focar sua atenção (e a trazê-la de volta em momentos de distração) em elementos como a respiração e suas sensações físicas.

De acordo com o site Mindful.org, “focamos na respiração não porque exista algo de especial nela, mas porque aquela sensação física de respirar, (…) o subir e descer do abdômen ou do peito ou o ar entrando e saindo pelo nariz e pela boca (…), está sempre lá”.

O segundo módulo foi batizado de “Afeição”, e teve como objetivo aumentar a empatia e a compaixão pelos outros. Para isso, os participantes trabalharam entre si a meditação amorosa (também conhecida como Metta ou loving-kindness). Segundo o psiquiatra e analista Paulo V. Boise no site Movimento Mindfulness, essa prática gera uma “atitude de abertura, curiosidade e gentileza com a vida.” 

meditacao amorosa

Por fim, o módulo “Perspectiva” assemelhou-se à meditação conhecida como Mindfulness (ou “atenção plena”). Nessa prática, os participantes deveriam apenas observar os próprios pensamentos — mas sem julgá-los. A ideia desse exercício era ampliar a compreensão acerca do ponto de vista das outras pessoas.

Mindfulness é uma maneira de ter plena consciência do que está acontecendo no presente”, disse Danny Penman, coautor do livro Atenção Plena — Mindfulness: como encontrar a paz em um mundo frenético e autor de A Arte de Respirar (ambos da Ed. Sextante), ao HuffPost Brasil

Quando começaram o estudo, os cientistas do Max Planck imaginavam que a prática de cada um desses métodos de meditação levaria a um aumento no volume cerebral da área “treinada” — mas acabaram descobrindo mais do que isso, como você verá a seguir.

#SomosTodosMonges
Para medir os resultados dos treinamentos, os cientistas do Instituto Max Planck usaram equipamentos de ressonância magnética para escanear os cérebros dos participantes ao fim de cada módulo e compararam as mudanças em sua estrutura.

brain scan

Conforme esperavam, diferentes módulos de meditação produziram alterações distintas:

  • A prática da meditação “Presença” (focada em concentração) levou a um aumento da espessura do córtex pré-frontal e do córtex cingulado anterior do cérebro, ambos fortemente relacionados à atenção;
  • A meditação do tipo “Afeição” (voltada à compaixão) levou a um aumento da espessura de regiões do cérebro envolvidas com emoções “sociais”, como a empatia;
  • Já o módulo “Perspectiva” (ou “atenção plena”) levou a duas mudanças significativas no cérebro: aumento das áreas relacionadas à compreensão dos outros e, ao mesmo tempo, inibição dos centros ligados ao próprio ponto de vista (ou ao próprio umbigo).

“Os resultados [desta pesquisa] são animadores pois nos oferecem um olhar minucioso de como a meditação pode mudar o cérebro em pouco tempo”, escreve Walton no blog. “Inúmeras pesquisas já revelaram que praticantes de meditação mais experientes alteram significativamente a estrutura e o funcionamento do cérebro. Mas um número crescente de estudos também têm demonstrado que um treinamento de meditação relativamente curto em novatos também pode alterar o funcionamento do cérebro, melhorar o bem-estar e reduzir sintomas de depressão e ansiedade.”

meditacao

Sabedoria antiga
Embora médicos, psicólogos e cientistas ocidentais tenham se debruçado recentemente sobre os efeitos da meditação, nas religiões orientais mais antigas — como Budismo, Hinduísmo, Cabala e Sufi (uma corrente do islamismo) — o uso da meditação para acalmar e transformar a mente data de mais de 2.500 anos.

Segundo a tradição budista, por exemplo, o próprio Sidarta Gautama, o Buda que conhecemos, teria atingido a “Iluminação” por meio da meditação. Desde então, milhões de praticantes têm usado as mais diversas técnicas ao longo dos séculos para eliminar da mente a raiva, a ganância e a ilusão, consideradas as causas de todo o sofrimento.

hindus

No hinduísmo, as primeiras referências à meditação podem ser encontradas em escritos sagrados como os Vedas indianos e os Upanishads. Além dos mantras, os hindus usam técnicas corporais sofisticadas — conhecidas como yoga — para atingir o que chamam de união com o criador (Paramatma ou Brahma).

As vantagens da yoga para a saúde, sobretudo para controle do stress, têm sido cada vez mais estudadas — e corroboradas — pela medicina ocidental. Mas tudo leva a crer que só descobrimos a pontinha (ínfima) do iceberg. Um estudo realizado pela Universidade do Texas com mulheres que tiveram câncer de mama mostrou que a prática de yoga as ajudou a manter a vitalidade durante a radioterapia. As possibilidades parecem mesmo infinitas.


Meditação para o século 21
As descobertas dos cientistas do Instituto Max Planck ultrapassam os limites do laboratório — e podem mudar radicalmente a maneira como desenvolvemos as habilidades necessárias para navegar as sociedades globalizadas do século 21.

O psicólogo Daniel Goleman, autor de Inteligência Emocional, disse ao site Na Prática que aptidões como resiliência, empatia, colaboração e comunicação — em suma, competências que podem ser moldadas pela meditação — “distinguem profissionais incríveis da média”, já que são essas as qualidades exigidas para ocupar os cargos de liderança da atualidade

“Com o aumento da globalização, da interconectividade e da complexidade da nossa sociedade, as habilidades interpessoais (ou soft skills) têm se tornado cada vez mais importantes”, dizem os pesquisadores do Max Planck. “Competências sociais como empatia, compaixão e a capacidade de se colocar no lugar do outro permitem uma melhor compreensão dos sentimentos alheios e são cruciais para uma cooperação bem-sucedida.”

Pelos achados da pesquisa, qualquer um (talvez com exceção dos psicopataspode desenvolver essas habilidades por meio da meditação. E então? Bora praticar?


Comece devagar
Segundo Wendy Suzuki, professora de ciência neural e psicologia na Universidade de Nova York e autora do livro Healthy Brain, Happy Life: A Personal Program to Activate Your Brain and Do Everything Better (algo como Cérebro Saudável, Vida Feliz: Um Programa Personalizado para Ativar seu Cérebro e Fazer Tudo Melhor, ainda inédito no Brasil), um dos equívocos mais frequentes de quem começa a meditar é querer virar um mestre Zen em uma semana.

“Um dos erros que eu mesma cometi foi tentar meditar por tempo demais de uma só vez”, diz Suzuki no vídeo abaixo. “Tentei meditar por 20, 25 minutos sem ter qualquer experiência. Foi um desastre.”

O ideal, portanto, é começar aos poucos. Suzuki conta que conseguiu criar o hábito de meditar diariamente ao incluir exercícios simples (e curtos) como a respiração atenta — em que focamos nossa atenção no singelo ato de inspirar e expirar o ar dos pulmões — em meio a atividades como aulas de yoga. Esse é um bom exercício para testar também no chuveiro ou durante uma caminhada, segundo o monge tibetano Thich Nhat Hanh, autor de Walking Meditation: easy steps to Mindfulness (algo como Meditação ao Caminhar: passos simples para a atenção plena, inédito no Brasil).

walking

Felizmente, meditar é um ato democrático, que independe de nossas crenças — só precisamos usar a concentração. Por causa disso, há uma infinidade de técnicas que podem ou não ter a ver com religião e espiritualidade (como mostram os vídeos do programa Bem Estar, da TV Globo).

Veja abaixo outros exemplos de práticas meditativas:

dalai lama

Diz o Dalai Lama que “a meditação pode ser entendida como uma técnica para enfraquecer antigos modelos de pensamento e desenvolver novos hábitos mentais”. Basta praticar.

© Espaço Govinda (www.espacogovinda.com.br). Proibida a reprodução total ou parcial deste post sem a expressa autorização do autor. Citações estão liberadas desde que forneçam créditos ao site e link para o conteúdo original.

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