Você se conformou em viver como uma galinha — mas na verdade é uma águia. O que te impede de voar mais alto?

Enquanto perambulava pelos bosques no entorno da cidade, um jovem camponês tropeçou em um filhote de pássaro caído à beira das árvores. Estava desacordado e com o corpo todo machucado — as asinhas tremiam ensanguentadas e a cabeça pendia para o lado, cravejada de feridas. “Deve ter caído de um ninho bem alto”, pensou. “É um milagre ter sobrevivido.”  

Como não havia sinal de que a mãe (ou alguém) voltaria para resgatar o filhote, o camponês decidiu levá-lo para casa. Tinha esperança de ajudá-lo a se recuperar e devolvê-lo logo à natureza. “Está com cara de ser uma andorinha ou um sabiá”, disse.

Era uma águia.

Semanas se passaram e a pequena ave de rapina cresceu saudável e imponente. Logo se sentiu à vontade naquela casa: passeava tranquilamente pela sala, subia pelos móveis na cozinha e disputava comida com o gato, o cachorro e até o coelho de estimação. Jamais se deu ao trabalho de olhar pelas janelas, quase sempre escancaradas.

E como a águia foi ficando, ficando… o rapaz levou-a para o galinheiro nos fundos da casa, junto a um punhado de poedeiras. “Aqui a águia estará segura e alimentada”, pensou. “Quem sabe ela não se acostuma?”

Nos meses seguintes, o camponês fez o que pode para domesticar a águia: alimentou-a de milho, ração e restos de comida, colocou-a para dormir em poleiros e até lhe fez um ninho com palha e areia. A águia majestosa começou a se convencer de que era, de fato, uma simples galinha.

Tudo bem que as asas roçavam a terra enquanto ela caminhava; que o bico curvado calejava ao martelar o solo à caça de insetos; ou que o pescoço ardia de dor depois de passar a noite arqueado no poleiro. Aquela era a vida que a águia conhecia. Era ali que se sentia em casa.

A história da águia que acreditava ser galinha correu a cidade que nem rastro de pólvora acesa. A casa do camponês rapidamente se transformou em atração turística, com gente de todos os cantos querendo espiar a tal ave de rapina. Até que um dia o rapaz recebeu a visita de um biólogo meio enxerido, que insistiu em observar a águia de perto.

Chegando ao galinheiro, o estudioso não acreditou no que viu. Uma águia magnífica, de quase um metro de altura, garras afiadas e olhos amarelo-topázio ciscava o chão à procura de vermes e formigas. Vez ou outra arriscava um vôo baixinho, mequetrefe, entre um poleiro e outro. Tentava até cacarejar.

Atônito e um tanto indignado, o biólogo insistiu para que o camponês libertasse a águia e permitisse que ela seguisse a vida de acordo com a sua natureza. Mas o camponês estava irredutível:

— Faz tempo que essa águia aí não é mais uma águia. É uma galinha.

O biólogo retrucou:

— O coração dela é e sempre será o de uma águia. É a sua essência. O dia em que esta águia ouvir o chamado de sua alma, voará às alturas (e provavelmente irá devorar o galinheiro inteiro).

Os dois decidiram pagar para ver.

Com um movimento rápido e certeiro, o biólogo agarrou a águia pelas asas e ergueu-a no galinheiro (mais ou menos como Rafiki fez com o pequeno Simba no clássico O Rei Leão, da Disney):

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— Você é uma águia e, como tal, pertence ao céu. Voe!

Nesse momento, duas águias cortaram o céu. Das mãos do biólogo, a águia que se achava galinha encarou as aves de rapina. Quem me dera ser como elas, suspirou. Livre para ganhar o mundo.

Ela então olhou para o biólogo, depois para as galinhas, de volta para o biólogo e mais uma vez para as galinhas. Fez, então, o impensável: estufou o peito, bateu as asas e correu ciscar o chão com as velhas companheiras. As águias pertencem ao céu, justificou-se às poedeiras. Nós somos aves da terra; estamos fadadas a ciscar o chão.

Inconformado, o biólogo tentou fazer a ave alçar vôo outras três vezes. A águia nem tchuns.

ÁGUIA

— Eu avisei que ela virou uma galinha, disse o camponês.

O biólogo fez uma última proposta:

— Amanhã bem cedo vamos levar a águia para o topo da montanha, longe das galinhas e de todos aqui. Ela se lembrará de quem é.

O camponês, que não botava a menor fé no biólogo, concordou. Antes de o sol nascer, lá estavam os dois de prontidão com a águia nas mãos (e provavelmente um crime ambiental nas costas).

Assim que a luz dourada começou a banhar o alto das montanhas, o biólogo ergueu a águia na direção do horizonte e ordenou que voasse. A ave permaneceu imóvel, como um animal empalhado. Sentia o corpo tremer por dentro. O estômago parecia digerir cacos de vidro. Não tinha coragem de abrir os olhos.

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Na ânsia de escapar daquele pesadelo, a águia imaginou-se de volta ao galinheiro. Lembrou-se do velho poleiro, tão desgastado pelo atrito com suas garras; das manhãs ciscando o chão junto com outras galinhas; das tardes à procura de formigas no solo. Aquele é o meu lugar, pensou. Esticar as asas e dominar o céu? Quem ele pensa que sou? Sou uma galinha. Galinhas não voam.

A poucos metros dali, aves de rapina ensaiavam vôos cortantes. Uma delas passou tão perto da águia que acabou por acordá-la de seus pensamentos. Despertada por um kau kau agudo, ela abriu os olhos e, sem querer, encarou o sol.

Suas pupilas se contraíram quase instantaneamente. Os raios quentes penetraram-lhe o coração. Uma alegria inexplicável inundou-lhe a alma. As asas, sempre contidas, ganharam vida própria e se esticaram para abraçar o mundo. A águia lembrou-se de quem era.

Ciente de sua natureza, a imponente ave de rapina entendeu o quanto havia se conformado àquela vida no galinheiro.

Com o biólogo já impaciente, a águia precisava agora tomar uma decisão — e rápido. Voltar para a vida entediante, porém segura, do galinheiro ou encarar o desconhecido e atender ao chamado da sua alma? (Correndo o risco de dar tudo errado)

O estômago, de tão apertado, parecia remoer cacos de vidro. Recordou-se do quanto havia lutado, como filhote, para sobreviver à queda do ninho. Preciso fazer o mesmo com o meu espírito, pensou. Não posso — não vou — sucumbir ao medo.

Com um misto de esperança e animação, tomou coragem: encheu os pulmões, ensaiou um kau-kau e mergulhou no céu rumo ao horizonte. Nunca mais comeu insetos ou dormiu em poleiros. Estava em paz.

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***

Você com certeza está se perguntando se é uma águia ou uma galinha. Ou, no mínimo, já se convenceu de que é uma águia vivendo como uma galinha. Seja como for, você tem convicção de que só podemos ser uma coisa ou outra, certo? E tomara que seja a águia.

Seria muito fácil se a natureza humana fosse assim preto no branco. Ou você é uma águia e voa às alturas, ou uma reles galinha fadada a ciscar o chão atrás de formigas. Mas isso está longe — muito longe — de ser verdade. E essa é, por incrível que pareça, uma ótima notícia.

Tanto a águia quanto a galinha habitam o nosso interior — trazemos um pouco de cada uma delas. Somos galinha quando precisamos dar conta das atividades comezinhas, materialistas [e indispensáveis], do cotidiano: arrumar a cama, preparar a comida, pegar os filhos na escola, trabalhar, escrever relatórios, fazer supermercado, pegar os exames no hospital… (Já reparou como passamos o dia “ciscando”?)

Revelamos (ou deveríamos revelar) nosso lado águia sempre que ouvimos nossa alma e direcionamos nosso espírito a algo maior. Não tem nada a ver com religião. Vivemos na nossa dimensão águia quando damos vazão aos nossos talentos, alcançamos nosso potencial e voamos longe — em suma, quando nos tornamos a melhor versão de nós mesmos.

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Segundo Leonardo Boff no livro A Águia e a Galinha (Ed. Vozes), esses dois aspectos da personalidade são decisivos para a vida humana; não podem ser separados. Em outras palavras, se é verdade que somos todos galinhas, também é verdade que somos todos águias.

No mundo ideal, viveríamos essas duas dimensões da nossa personalidade de maneira equilibrada. Há momentos em que precisamos ser galinhas. Outros em que é necessário dar voz a nosso lado águia. Por que, então, parece haver muito mais galinhas do que águias no mundo? O que nos impede de voar às alturas?

Medo x Sobrevivência
Não é por falta de incentivo. Vivemos no que é certamente o século mais egoísta e individualista da história. Estamos soterrados por mensagens do tipo Seja você mesmo e danem-se os outros — tente encontrar um único anúncio publicitário que não diga isso de forma escancarada ou nas entrelinhas.  

O fato é que, por razões biológicas e evolutivas, somos viciados em aceitação. Os seres humanos que sobreviveram ao matar ou morrer das cavernas e passaram seus genes adiante (dando origem a nós) foram justamente os mais adaptados à vida em sociedade — afinal, é preciso um bando para matar um mamute.

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Acontece que hoje, na sociedade moderna, essa genética nos cobra um alto preço. Claro, viver em comunidade é ótimo — conquistamos muito mais juntos do que sozinhos. Isso não mudou. Mas nos tornamos tão escravos dessa vida em bando que a rejeição passou a doer tanto quanto um golpe de machado — pelo menos para o nosso cérebro, o efeito é o mesmo. Estudos de neurociência com ressonância magnética mostram que, ao nos sentirmos rejeitados, “acionamos” as mesmas áreas do cérebro ligadas à dor física. E, convenhamos, ninguém gosta de sentir dor.

Então, por pânico de levar essa machadada, tentamos de tudo para sermos plenamente aceitos (a biologia agradece); anulamos o chamado de nossa alma para nos adequar ao que os outros esperam de nós.

Só que, por insegurança, medo, ignorância ou pura mesquinhez (a biologia, sempre ela), esses outros quase sempre têm a régua lá embaixo, próxima ao magma da Terra. Eles não apenas não querem o nosso melhor como nos penalizam por sermos diferentes.

“Nosso maior medo não é sermos inadequados”, diz Debbie Ford no livro Efeito Sombra — encontre o poder escondido na sua verdade (Ed. Leya). “Mas sermos poderosos além do que imaginamos. É a nossa luz, não a nossa sombra, o que mais nos aterroriza. Perguntamos a nós mesmos: ‘Quem sou eu para ser brilhante, maravilhoso e talentoso?’”

Para o nosso cérebro, é a senha para asfixiar a águia de vez.

A opinião dos outros vicia como açúcar
No livro Guia para Águias que acreditam ser Frangos (Ed. Academia), o psicoterapeuta jesuíta Anthony de Mello compara nossa compulsão por aceitação ao vício em drogas (ou, no meu caso, em chocolate) — quanto mais temos, mais queremos. Então, como drogados, começamos a fazer de tudo por mais uma dose de aprovação alheia. Vale inclusive (ou principalmente) anular a nossa essência. Tornamo-nos escravos do galinheiro. A sociedade é uma enorme crackolândia.

Basta observar o que acontece nas nossas vidas e no nosso entorno. São inúmeras as situações em que sufocamos nosso verdadeiro eu — nossos talentos, anseios, qualidades e aptidões — para viver na mediocridade do que os outros esperam de nós.

Seguimos a carreira que agrada aos nossos pais (Contabilidade nem é tão chato, vai); suportamos um emprego enfadonho (no Detran, talvez?) só para ter estabilidade (olha a crise, meu filho!); perpetuamos um relacionamento sem amor (e muitas amantes) para manter as aparências; deixamos de nos matricular naquele curso bacanérrimo de dança havaiana porque “já passamos da idade”.

Enquanto isso, nossa águia vai ficando atrofiada, coitada. Será que um dia ela vai se recuperar?

“Cada pessoa tem dentro de si uma águia. Ela quer nascer. Sente o chamado das alturas. Busca o Sol. Por isso somos constantemente desafiados a libertar a águia que nos habita.” Leonardo Boff, no livro A Águia e a Galinha.

Liberte a sua águia
Por natureza, águias buscam o Sol, as alturas, desde o momento em que nascem. Não importa o que aconteça, esse chamado está sempre vivo. É como um fogo que não se consome. Pode estar abafado, enclausurado ou apenas sapecando — mas continua lá, tinindo.

Libertamos a nossa águia interior sempre que valorizamos o ser em vez do ter; sempre que encaramos obstáculos como oportunidades de crescer (e não de desistir); sempre que lutamos por nossos ideais e não pelo que os outros acham certo. Somos águias quando acreditamos em nós mesmos.

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Gênios como Einstein, Mozart, Picasso e até o Jeff Bezos, criador da Amazon (acima), alçaram grandes vôos ao viverem sua dimensão águia. O que você tem vontade de fazer, de criar? Até onde pode voar?

O eu não existe
Despertar nosso lado águia depende, em larga medida, de entendermos a nossa alma. E como saber quem você
realmente é? De acordo com o filósofo Julian Baggini no TED Is there a real you? (Existe um você de verdade?), somos a soma de todas as nossas experiências, desejos, crenças e lembranças — e não uma “entidade” que “possui” todas essas coisas. Pense em si mesmo como um grande quebra-cabeças.

Na prática, isso significa que estamos em constante transformação. Nada é permanente quando se trata de personalidade. Podemos ser o que quisermos na hora em que desejarmos. Ninguém está fadado a ser uma galinha para sempre; podemos começar a despertar nossa águia neste exato momento. Mude as peças do quebra-cabeças e você terá uma imagem inteiramente nova. 

“Irrigadores dominam as águas. Carpinteiros modelam a madeira. Os sábios constroem a si mesmos”. Buda.

Pode ser que sua águia esteja clamando por um novo emprego, por um relacionamento mais amoroso, por um trabalho voluntário na África ou por finalmente escrever aquele livro ou roteiro de cinema que você protela há anos. São essas as realizações que alimentam a nossa alma e engrandecem o mundo. Liberte-se do galinheiro e se jogue no horizonte.

Romper com o nosso eu, com o que fomos até aqui, pode até parecer uma tarefa hercúlea, mas a verdade é que fazemos isso o tempo todo; só não nos damos conta. “Seu verdadeiro eu não é algo que está lá esperando ser descoberto”, diz Baggini no TED. “Você está criando o seu verdadeiro eu. Basta perceber o quanto você mudou nos últimos anos. Se você tem algum vídeo de três ou quatro anos atrás, provavelmente sentirá vergonha ao assisti-los, pois não se reconhece mais neles.”

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A ideia de que nos reinventamos a cada dia é um dos alicerces do Budismo. Há pelo menos 2.500 anos, Buda Shakyamuni (o Buda que conhecemos) já afirmava que o ego é uma ilusão. “Os sábios constroem a si mesmos”, dizia. Ainda bem. O mundo está cheio de galinhas. Precisamos de mais águias.

 

 

 

Fontes:
A Águia e a Galinha, de Leonardo Boff (Ed. Vozes)
Guia para Águias que acreditam ser Frangos, de Anthony de Mello (Ed. Planeta | Academia)
O Efeito Sombra — encontre o poder escondido na sua verdade (Ed. Leya)
The Shadow Effect Week 6: Your Future (Oprah.com)
Soar like Eagles or Scratch like Chickens — the Choice is yours (Huffington Post)

 

© Espaço Govinda (www.espacogovinda.com.br). Proibida a reprodução total ou parcial deste post sem a expressa autorização do autor. Citações estão liberadas desde que forneçam créditos ao site e link para o conteúdo original. 

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