Esvazie sua xícara

Há pouco mais de um século, durante a era Meiji (1868-1912), viveu no Japão um sábio mestre Zen admirado por sua sabedoria e simplicidade. Pessoas de diversos cantos do país — jovens e velhos, homens e mulheres, ricos e pobres — peregrinavam durante semanas, às vezes meses, para ouvir seus conselhos.

Nan-in, como era conhecido, raramente os decepcionava — não tanto pelas palavras que usava, mas pelo jeito simples com que transmitia sua enorme compreensão das coisas.

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Certo dia, o professor de Filosofia de uma universidade local decidiu fazer-lhe uma visita. Intrigado com a influência que o mestre exercia sobre seus alunos, o “doutor” queria entender um pouco melhor do que se tratava esse tal de Zen.

A conversa se estendeu por horas. O professor inundou Nan-in de perguntas sobre o budismo, discorreu sobre os grandes nomes da Filosofia, falou dos livros que tinha lido, das palestras que havia frequentado e de sua visão a respeito do mundo e das pessoas.

Nan-in, como era de costume, ouviu tudo em silêncio enquanto preparava um chá para o visitante.

Quando o professor finalmente terminou sua eloquente dissertação, Nan-in serviu-lhe uma perfumada infusão amarelo-clara (daquele tipo que só os japoneses sabem fazer).

O mestre Zen encheu a delicada xícara de porcelana até a borda — e continuou derramando o chá até que o líquido extravasasse para o pires, inundasse a mesa e começasse a encharcar as roupas do professor.

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Indignado, o catedrático inquiriu Nan-in:

— Mestre, o senhor não vê que o chá está transbordando?

Com um sorriso, Nan-in respondeu:

— Assim como esta xícara, sua mente está cheia de ideias, especulações e teses pré-concebidas. Mesmo que eu responda suas perguntas, você irá ignorar as explicações. Como posso lhe ensinar novos conceitos e perspectivas? Não cabe mais nada aí dentro. Vá para casa e volte quando sua mente tiver espaço para abraçar opiniões novas. Se você realmente busca conhecimento, deve aprender a esvaziar sua xícara o tempo todo.”

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Só então o filósofo entendeu a sabedoria do mestre Zen.

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***

Todo mundo que já precisou arrumar um armário (ok, talvez uma gaveta) sabe que, para acomodar quinquilharias novas, é preciso antes de mais nada se livrar das velharias. É uma questão de espaço — que, aliás, é finito (a menos que você seja um acumulador compulsivo, a minha irmã bagunceira ou as duas coisas).

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Com a mente é a mesma coisa. Não parece, mas nossas ideias, opiniões e conceitos sobre a vida ocupam um espaço danado. E algumas dessas noções estão lá cristalizadas há tanto tempo que parecem parte da gente — sequer cogitamos nos livrar delas.

Parece loucura? Então tente se lembrar da última vez em que mudou de opinião sobre alguém: a vizinha sem-noção, o colega espaçoso, a cunhada arrogante ou o chefe preguiçoso. Ou pense nas discussões acaloradas que costuma ter por causa de política, futebol ou educação dos filhos. Difícil abrir mão das suas opiniões, não é mesmo? Mas fique tranquilo: é assim com todo mundo.

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Por isso, para absorver um novo conceito ou ideia, você precisa se livrar das antigas concepções. E não se trata de mero ensinamento Zen budista; nosso cérebro ama a coerência não suporta o que psicólogos chamam de dissonância cognitiva — um conflito entre o que pensamos e a maneira como agimos.

Em outras palavras, se você tem convicção de que seu chefe é um idiota, seu cérebro jamais permitirá que você ache as sugestões dele razoáveis (ou até toleráveis), por melhor que sejam.

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Imagine, portanto, a quantidade de coisas que deixamos de aprender ou de pontos de vista que deixamos de adotar porque nossa mente já está lotada de julgamentos e informações. Precisamos reaprender a ouvir para entender o mundo, as pessoas e até a nós mesmos.

Nesse sentido, até o que parece bom pode esconder uma armadilha. Quanto mais conhecimento intelectual adquirimos — ou seja, quanto mais nos tornamos “especialistas” em algo — mais nos agarramos ao que sabemos e mais refratários a novas ideias nos tornamos.

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“Se estivermos cheios de informações, não seremos capazes de ouvir o que os outros têm a nos dizer”, diz Monja Coen, uma das referências do budismo no Brasil, no livro 108 Contos e Parábolas Orientais.

Não por acaso, algumas das criações mais inovadoras da humanidade — a lâmpada elétrica, o avião, o iPhone — não saíram da cabeça de “experts”, mas de gente disposta a compreender o mundo sob diferentes perspectivas.

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“Na mente do principiante, há muitas possibilidades; na do especialista, apenas algumas.” Shunryu Suzuki-roshi, mestre Zen.

Está esperando o que para esvaziar sua xícara?

Fontes:

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