Quer ser feliz? Então pare de correr atrás da felicidade e busque um propósito

“Eu achava que o propósito da vida era buscar a felicidade”, diz a jornalista Emily Esfahani Smith, autora do livro O Poder do Sentido: os quatro pilares essenciais para uma vida plena (Ed. Objetiva), em uma conferência TED em setembro de 2017 (veja abaixo com legendas em português). “E, como todo mundo dizia que felicidade é o mesmo que sucesso, passei a procurar pelo emprego ideal, pelo namorado perfeito, pelo apartamento dos sonhos. Mas em vez de ficar satisfeita, comecei a me sentir ansiosa e sem rumo. E eu não estava sozinha. Meus amigos passaram por isso também.”

Vinte e cinco séculos se passaram desde que o jovem príncipe Sidarta Gautama — também conhecido como Buda — abandonou sua vida luxuosa em um pequeno reino no Himalaia para descobrir as causas do sofrimento humano. Mas, ao que parece, nada mudou: a felicidade continua nos escapando, não importa o que fazemos para alcançá-la. Ansiedade, frustração de descontentamento parecem ser “parte inseparável” da condição humana, segundo o historiador Yuval Noah Harari no livro Sapiens — uma breve história da Humanidade (L&PM Editores).

“As pessoas almejam riqueza e poder, adquirem conhecimento e posses, geram filhos e constroem casas e palácios mas, não importa o que conquistem, nunca estão contentes”, diz Harari sobre as descobertas de Gautama em suas andanças pelo norte da Índia. “Os que vivem na pobreza sonham com riquezas. Os que têm 1 milhão querem 2 milhões. Os que têm 2 milhões querem 10. Mesmo os ricos e famosos raramente estão satisfeitos. Eles também são assombrados por preocupações e angústias incessantes.”

Afinal, o que nos faz felizes de verdade?

 

É NO MÍNIMO IRÔNICO QUE nos sintamos tão angustiados, solitários e deprimidos logo agora que temos amplo acesso ao que queremos.

Basta olhar ao redor para perceber que levamos uma vida (muito) melhor e mais confortável que a de nossos antepassados — temos remédios e comida à disposição, saneamento básico (já imaginou a vida sem a descarga ou o chuveiro?), liberdade para namorar, casar (ou não) e ter filhos, podemos comprar artigos tecnológicos de última geração (e até importá-los se for o caso). Se Emily Esfahani pode escolher onde morar e trabalhar e com quem namorar, sua bisavó no máximo podia sonhar com um contraceptivo.

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Mulheres aprendendo “Ciência” no começo do século 20 (fonte: McGill Archives)

Entretanto, nenhum desses avanços elevou de maneira significativa nossos níveis de satisfação — na realidade, eles só pioraram ao longo dos anos, a despeito de todas essas conquistas e de nossa obsessão com a felicidade.

Para se ter uma ideia, em 2016, segundo dados do instituto de pesquisa IMS Health, as vendas de antidepressivos e estabilizadores de humor cresceram 18% no Brasil — só perderam para os analgésicos (em outras palavras, a depressão só não é mais comum do que a dor de cabeça). No mundo todo, estima-se que as vendas de antidepressivos ultrapassem os 16 bilhões de dólares até 2020 — o dobro do esperado para os remédios contra a gripe, que tem status de epidemia. “Há um vazio nos corroendo”, diz Emily Esfahani no TED. “E não é preciso ter depressão para sentir isso.”

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Ao que tudo indica, quanto mais buscamos a felicidade mais tristes e desiludidos nos tornamos. Será que estamos condenados ao desespero?

 

A NOÇÃO DE FELICIDADE COMO o jogo de gato e rato que vivemos hoje tem origem na Grécia antiga. O filósofo grego Epicuro, que viveu por volta do século IV a.C, foi um dos primeiros a argumentar que a dolce vita está relacionada ao prazer, que ele definia como a ausência de dores físicas e mentais, como a ansiedade (a tese rendeu-lhe o apelido de “Profeta do Prazer”).

A ideia atravessou o tempo, floresceu durante a Idade Média e encontrou eco em Sigmund Freud, o pai da psicanálise, no início do século XX. Para ele, as pessoas se guiam pelo “princípio do prazer” — o sentido da vida estaria em não só encontrar a felicidade como em permanecer feliz. (Basta dizer que Gautama tornou-se Buda antes disso.)

Como é da nossa natureza evitar o sofrimento como quem foge da peste, não demorou para que esse conceito de felicidade atrelado ao prazer fosse levado ao extremo e se convertesse em “ter e comprar o que desejamos” — para permanecer feliz, portanto, bastaria desejar mais e comprar mais.

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O problema de associar a felicidade ao prazer e à satisfação dos desejos é que isso dura pouco: tão logo conseguimos o que queremos — se é que conseguimos — vêm o tédio, o hábito e o vazio. E, assim como acontece com os vícios, passamos a buscar cada vez mais daquilo que supostamente nos fará felizes: outro carro, ouro casamento, outro filho…

“A Vontade está sempre pedindo alguma coisa”, diz o blog Acerbo aos Domingos neste post sobre o livro O mundo como vontade e representação, do filósofo alemão Arthur Schopenhauer. “Nós sofremos buscando algo, sofremos se não conseguimos e, se alcançamos, vem o tédio, ou seja, mais sofrimento. Essa busca pela felicidade só traz sofrimento, angústia e ansiedade porque o presente é sacrificado visando o futuro.” 

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Buda havia chegado a uma conclusão parecida no século VI a.C. Segundo Harari em Sapiens, “o que Gautama compreendeu é que, não importa o que a mente experimente, ela sempre reage com desejo e o desejo gera insatisfação. Quando a mente experimenta algo desagradável, deseja se livrar da irritação. Quando experimenta algo agradável, deseja que o prazer permaneça e se intensifique.”

Como exemplo desse dilema, Harari cita nossa busca frenética pelo amor — mas a ideia pode ser extrapolada para o que quer que desejemos. “As pessoas sonham durante anos em encontrar o amor, mas raramente ficam satisfeitas quando o encontram. Algumas temem que o parceiro as deixe; outras sentem que se contentaram com pouco e que poderiam ter encontrado alguém melhor. E todos conhecemos pessoas que conseguem sentir as duas coisas ao mesmo tempo.”

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Não é que jantar em um bom restaurante, morar em uma casa legal, viver um romance de conto de fadas ou viajar todo ano para um lugar incrível seja ruim — a vida também é feita de prazeres. Mas é importante ter em mente que essas benesses não são garantia de felicidade. “Mais cedo ou mais tarde acredito que todos se perguntem isso é tudo o que existe?”, diz Emily Esfahani no TED. 

 

INTRIGADA, EMILY ESFAHANI PASSOU cinco anos entrevistando centenas de pessoas e mergulhou em textos de psicologia, neurociência e filosofia. O que ela descobriu? Que a busca desenfreada pela felicidade apenas tira o nosso o foco do que realmente importa — encontrar um propósito para a vida.

Tanto no livro O Poder do Sentido quanto no TED, Esfahani faz uma clara distinção entre propósito e felicidade. “Muitos psicólogos definem a felicidade como um estado de conforto e bem-estar, de se sentir bem aquele momento”, diz. “O propósito, no entanto, é mais profundo”, e tem a ver com uma sensação de pertencimento e de dar o melhor de si a algo maior do que nós mesmos.

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Em seus estudos, Esfahani percebeu que as pessoas que encontram um propósito para a vida são mais resistentes, se dão melhor na escola e no trabalho e até vivem mais. “Nossa cultura é obcecada com a felicidade”, diz. “Mas a procura por um sentido é muito mais gratificante.”

“Aquele que tem um ‘porque’ para viver pode enfrentar quase todos os ‘como’.” Friedrich Nietzsche

É essa sensação de que a vida tem um significado que faz com que algumas pessoas permaneçam alegres e otimistas apesar das adversidades. A boa notícia? Não é preciso ser “iluminado” e nem se inscrever no Médicos sem Fronteiras para conseguir isso, como você verá a seguir.

 

LEVAR UMA VIDA PLENA é mais simples do que parece, como mostram os “4 pilares para uma vida com sentido” criados a partir do estudo de Emily Esfahani:

  • Crie laços profundos

Para a maior parte das pessoas, pertencer a um grupo — de amigos ou familiares — é uma das maneiras mais garantidas de encontrar sentido para a vida. Isso porque, nessas relações, elas se sentem valorizadas pelo que são, e não pelo que fazem ou no que acreditam. Felizmente, esses laços baseados em amor são uma escolha — e Esfahani nos aconselha a praticá-los em um número cada vez maior de círculos, inclusive com aqueles com quem pouco convivemos.

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Parece óbvio? Então pense em quantas vezes você ignorou uma pessoa na rua, afundou os olhos no celular durante um almoço de trabalho ou rejeitou uma gentileza de alguém que só queria ser legal com você, sem esperar nada em troca. “Essas atitudes desvalorizam os outros e os fazem se sentir indignos e invisíveis”, diz a psicóloga. “Mas quando você começa [uma relação] com amor, cria um vínculo que coloca você dois para cima.”

 

  • Pense em formas de contribuir

Aqui a ideia é pensar no que você pode dar ao mundo e não no que pode receber dele. Um jeito fácil de encontrar seu propósito é se perguntar como você pode colocar suas habilidades a serviço dos outros. E isso não necessariamente tem a ver com trabalho — embora sem dúvida o torne mais empolgante ou no mínimo menos sofrível. Há quem encontre sentido na criação dos filhos, no cuidado de pessoas doentes ou no plantio de árvores para deixar a cidade mais verde. “[Ter um ] propósito te dá algo por que vale a pena viver” diz Esfahani no TED. “[Ele] te empurra para a frente.”

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  • Deixe-se absorver pelo que gosta

Sabe aquela sensação de estar tão imerso em uma tarefa, objeto, ritual ou pessoa que parece que o tempo para? É muito comum quando ouvimos uma boa música, praticamos nosso hobby predileto, estamos diante de uma obra de arte e até quando rezamos — nessas horas, somos uma coisa só com o que estamos fazendo, a ponto de deixarmos para trás o reme-reme do dia a dia.

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Isso não significa necessariamente que você esteja gargalhando. “Às vezes um dia feliz é acordar às dez da manhã sem ter nada para fazer , tomar uma xícara de café e escrever um poema sobre a solidão”, diz este post sobre a Felicidade no blog Mentiras Relativas

Esfahani chama esses momentos de total absorção de transcendência, e acredita que eles possam mudar a nossa relação com o mundo. “[Nessas horas], sua noção de si mesmo se dissolve e você se sente conectado a uma realidade mais elevada”, diz. 

 

  • Reinterprete a sua história

Pouca gente sabe — ou se dá conta — de que podemos reinterpretar os fatos que compõem a nossa existência, dando-lhes novos significados. Pode não parecer, mas encarar uma falha como burrice ou aprendizado faz muita diferença no seu nível de satisfação pessoal e, portanto, de felicidade.

Segundo Esfahani, pessoas que tratam a própria história como uma narrativa do tipo antes era ótimo e agora está péssimo tendem a ser mais ansiosas e depressivas. Por outro lado, as que constroem enredos baseados na noção de que o mal é resgatado pelo bem levam uma vida com mais sentido, já que enxergam suas histórias pela ótica do crescimento e do amor.

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Claro, você não vai mudar o que aconteceu (afinal, é impossível mexer no passado), mas pode alterar como interpreta o ocorrido e a narrativa que conta a si mesmo. E isso pode ser feito com relação a qualquer fato, não importa quão longínquo ou penoso ele seja.

5 licoes de storytellingNo livro 5 Lições de Storytelling (DVS Editora), James McSill explica que “a nossa alfabetização emocional vem através da história. Ao trabalharmos as nossas histórias pessoais, exploramos quem somos e o que sentimos dentro de um mundo não muito diferente da ficção.”

No TED, Esfahani cita o exemplo de Emeka, um jovem que ficou paralisado depois de sofrer um acidente jogando futebol. “Depois da lesão, Emeka disse a si mesmo ‘Minha vida era maravilhosa, mas agora… olhe para mim’. Mas, com o passar do tempo, ele começou a se contar uma outra história. ‘Antes da lesão, minha vida não tinha um propósito. Eu só queria saber de festa e era um cara bem egoísta O acidente me fez perceber que eu poderia ser uma pessoa melhor’. Essa edição na história mudou a vida de Emeka. Depois de contar essa narrativa a si mesmo, ele começou a dar mentoria a crianças e descobriu seu propósito: ajudar os outros.”

Perceba que o fato em si — o acidente — permanece o mesmo. O que mudou foi o modo como Emeka encarou a lesão.

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Você não precisa gastar os tubos em terapia ou ser um expert em contar histórias para construir a sua narrativa. Segundo Esfahani, basta refletir sobre cada experiência importante da sua vida e se perguntar como você a está definindo. O que ganhou com ela? O que perdeu?

 

DO PONTO DE VISTA DO Budismo e da Programação Neuro-Linguística (PNL), é possível acrescentar outros dois pilares à estrutura desenvolvida por Esfahani:

  • Aceite as coisas como são

“Se, quando sentir algo agradável ou desagradável, a mente simplesmente entender as coisas como são, não haverá sofrimento”, diz Harari em Sapiens sobre os achados de Sidarta Gautama em suas peregrinações. “Se você vivenciar a tristeza sem desejar que a tristeza desapareça, continuará a sentir tristeza, mas não sofrerá com isso. Com efeito, pode haver riqueza na tristeza. Se você vivenciar a alegria sem desejar que a alegria perdure e se intensifique, continuará a sentir alegria sem perder a paz de espírito.”

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Como fazer isso se você (como eu) não é um Buda? Existem diversas maneiras de treinar a mente para livrá-la do sofrimento. O monge vietnamita Thich Nhat Hahn ensina algumas técnicas de meditação e respiração bem simples no livro Sem Lama não há Lótus — como, por exemplo, embalar a dor como se fosse um recém-nascido desesperado por atenção.

 

  • Vá além das metas

No livro Desperte seu Gigante Interior (Ed. Best Seller), o guru motivacional Anthony Robbins, famoso por disseminar técnicas de PNL para desenvolvimento pessoal e profissional, explica que ter metas é importante, mas elas não podem ser maiores do que o nosso objetivo de vida.

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“[As metas] são apenas uma ferramenta para concentrar nosso foco e nos mover em uma determinada direção”, diz Robbins no livro que virou sucesso no mundo inteiro. “A única razão pela qual perseguimos metas é expandir e crescer. Atingir uma meta por si só nunca vai nos fazer felizes no longo prazo; é quem você se torna, à medida em que supera os obstáculos para atingir as metas, que pode te proporcionar o sentido de realização mais profundo e permanente. Então talvez a pergunta que você e eu devemos fazer é que tipo de pessoa eu terei de me tornar para conseguir tudo o que quero? Essa deve ser a pergunta mais importante para fazer a si mesmo, pois determina a direção que você precisa seguir.”

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Desfrutar de uma vida plena não significa que seremos felizes o tempo todo; sempre haverá momentos de angústia, medo, raiva e tristeza. Mas encontrar um sentido para a nossa existência ajuda (e muito) a sobreviver a tudo isso — e com resultados mais duradouros do que apenas comprar uma bolsa nova ou investir em um carrão.
“A felicidade vai e vem”, diz Esfahani. “Mas quando as coisas vão muito mal, ter um propósito te dá algo em que se agarrar.”

 

© Espaço Govinda (www.espacogovinda.com.br). Proibida a reprodução total ou parcial deste post sem a expressa autorização do autor. Citações estão liberadas desde que forneçam créditos ao site e link para o conteúdo original. 

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