É possível mudar a nossa personalidade? O que diz a psicologia

Já reparou que passamos a vida toda tentando nos adaptar ao que a sociedade — ou a religião, a família… — espera de nós? Se está na moda ser magro, encaramos as dietas mais malucas. Se o legal é ser extrovertido, assistimos a palestras e compramos dezenas de livros que nos ajudem a vencer a timidez. Se o “correto” é ser um Buda — bem, aí não tem muito o que fazer, não é mesmo?

Brincadeiras à parte, gastamos um caminhão de energia na expectativa de dar uma virada, deixando para trás aspectos que julgamos condenáveis na nossa personalidade e lutando para adotar uma nova persona — mais contida, expansiva, alegre, soturna, relaxada, angustiada, ousada ou segura de si.

E tanto faz se esse novo indivíduo (essa versão idealizada de nós mesmos) não tem nada a ver com a nossa essência. Se não der certo, vamos tentar, tentar e tentar de novo, mesmo que para isso tenhamos uma existência miserável.

Mas será que vale a pena tanto esforço?

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DE ACORDO COM O PSICANALISTA Luis Alberto Hanns neste vídeo da Casa do Saber postado pelo blog O Bem Viver, há coisas que até conseguimos mudar na nossa personalidade — como o que aprendemos (novos valores, novas atitudes) ou o ambiente em que estamos inseridos (a empresa, a escola, o casamento…).

Mas há outras que, por mais que a gente tente, vão permanecer o que são simplesmente porque fazem parte da nossa natureza (e por natureza ele quer dizer genética). “Estudos mostram que 50% das suas características — como agressividade, interesses, abertura para o novo — vêm da biologia”, diz Hanns.

Isso explica porque é tão difícil substituir uma personalidade explosiva pela de um monge tibetano, desenvolver a capacidade de abstração do Einstein se você mal consegue fazer contas de cabeça ou ter o corpo da Gisele com o seu (ou o meu) metabolismo de bicho-preguiça — lutar contra a nossa essência é um jeito certo de gerar ansiedade e frustração.

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Devemos então nos conformar com o que somos, sem qualquer expectativa de melhora?

 

NÃO É DE HOJE QUE O HOMEM procura mudar a si mesmo para evoluir, buscar alguma iluminação espiritual ou viver melhor em sociedade — em outras palavras, ser mais feliz. Textos sagrados como o Bhagavad Gita, no Hinduísmo, e o Novo Testamento, no Cristianismo, já traziam uma série de instruções sobre como podemos progredir sem desrespeitar a nossa natureza.

No Bhagavad Gita, Krishna — considerado o Ser Supremo pelos hindus — tenta persuadir seu discípulo Arjuna a fazer escolhas difíceis para crescer como ser humano, deixando para trás ressentimentos, apegos e vaidades e cumprindo seu dever da melhor maneira simplesmente porque é a coisa certa a se fazer. Entre os ensinamentos mais importantes, o texto nos estimula a ignorar as opiniões alheias e ouvir o que temos de mais virtuoso, casto e invencível — a nossa alma.

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Apelo semelhante pode ser encontrado no Novo Testamento. “Jesus ensinou que as pessoas que estão crescendo são sempre capazes de mudar sua maneira de pensar a respeito das coisas”, diz Mark W. Baker, autor do livro Jesus, O maior psicólogo que já existiu (Ed. Sextante). “À medida que nos desenvolvemos e mudamos, antigas convicções inflexíveis são destruídas e deixam de funcionar para nós.”

“Não se põe vinho novo em odres velhos”.
Mateus 9:17

Em ambos os casos, somos incentivados a encontrar um meio termo que nos permita avançar sem a necessidade de sacrificar a nossa essência. “Você não pode mudar [os princípios organizadores que regem o seu inconsciente e as suas escolhas]”, diz Baker. “Mas pode crescer.”

Da mesma forma, o psicanalista Luiz Alberto Hanns afirma que, para que uma mudança seja duradoura, o ideal é encontrar uma maneira de equilibrar três pratos — o que podemos aprender, em que ambiente vamos viver e o que é preciso aceitar em nós mesmos.

Para ilustrar como isso funciona na prática, Hanns cita o caso do ex-presidente americano Barack Obama.

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Obama é tímido por natureza: nunca foi chegado a holofotes, negociava com discrição quando estava no Congresso, fugia de polêmicas e só falava o indispensável. No entanto, ele adquiriu novas habilidades para chegar à Casa Branca — começou a participar de programas de humor, deu as caras nas redes sociais e deixou-se retratar em situações mas intimistas (quase sempre junto com a família).

Isso significa que ele deixou de ser tímido? De jeito nenhum. Obama não mudou sua essência, mas adaptou-se à situação, adquirindo as características que julgou relevantes para chegar aonde queria. E chegou.

Troque “timidez” por otimismo, pessimismo, extroversão, senso de humor, franqueza, espontaneidade ou qualquer outro atributo e voi là — você já tem uma ideia do que é possível (ou não) mudar no seu jeito de pensar e agir. “Se a gente fizesse uma comparação com o computador, a sua biologia seria o seu hardware e a sua aprendizagem seriam os apps instalados, os software”, diz Hanns.

 

MAS ANTES QUE VOCÊ SAIA POR AÍ tentando se converter na Madre Tereza, pense se não seria mais fácil — e até mais divertido — valorizar suas peculiaridades (aquilo que faz de você, bem, você). No ambiente certo, aquilo que você tanto condena em si mesmo pode se converter no seu maior trunfo — e, de quebra, você se livra da pressão de tentar ser o que não é.

“Com o tempo você pode até transformar essas posturas que vão contra a sua maneira de ver o mundo em uma segunda pele”, diz Luiz Alberto Hanns. “Mas sempre vai ser uma segunda pele.”

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Na prática, segundo Hanns, é como lidar com a tendência à obesidade: você pode mantê-la sob controle com reeducação alimentar ou mudança no estilo de vida. Mas ela sempre estará à espreita e as recaídas são quase certas. Em vez disso, contentar-se em mudar o padrão de comportamento que você deseja em 30%, 40% ou 70% (e não os inatingíveis 100%) pode ser o suficiente para uma vida pra lá de satisfatória, com muito menos frustrações.

“Não tenha a ambição de ser o que você não é”, diz Hanns. “Adapte o que precisa ser adaptado e valorize o que você tem à disposição. Jogar com esse tripé é parte da arte de viver.”

 

© Espaço Govinda (www.espacogovinda.com.br). Proibida a reprodução total ou parcial deste post sem a expressa autorização do autor. Citações estão liberadas desde que forneçam créditos ao site e link para o conteúdo original. 

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