Como transformar a dor em felicidade

Quem observa um daqueles lagos sujos, lamacentos e cheios de insetos no calor do sudeste asiático não imagina que eles sirvam de berço para uma das mais belas, delicadas e reverenciadas flores do mundo — a lótus.

O desleixo com a limpeza da água tem uma razão. Símbolo de pureza e iluminação espiritual, a flor de lótus depende do lodo para fincar suas raízes na terra e desabrochar na superfície. Quanto mais pantanoso, gosmento e inóspito o ambiente, mais exuberante é a flor que sai de lá.

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Para o monge vietnamita Thich Nhat Hanh, um dos mais respeitados mestres do budismo na atualidade, essa contradição é mais do que uma curiosidade botânica — é uma lição de vida. No livro Sem lama não há lótus — A arte de transformar o sofrimento (Ed. Vozes), ele explica que, assim como acontece na natureza, nossas aflições, dissabores e tristezas — em suma, o nosso lodo — são na verdade a matéria-prima da nossa felicidade. E vai além: é impossível ter um sem o outro.

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“A maioria das pessoas tem medo do sofrimento”, diz Nhat Hanh. “Mas o sofrimento é uma espécie de lama que ajuda a flor de lótus da felicidade a crescer. Sem lama não há lótus.”

Ainda segundo o monge budista, da mesma forma que as flores se transformam no adubo que alimentará novos botões, a felicidade e o sofrimento são parte do mesmo ciclo — daí a necessidade de abraçarmos a dor se quisermos viver com alegria.

“Quando sofremos, tendemos a acreditar que só existe dor naquele momento e que a felicidade pertence a outro lugar e outro tempo”, diz Nhat Hanh. “Se pudermos reconhecer e aceitar a dor sem fugir dela vamos descobrir que pode haver alegria junto com as nossas agruras (…). Se usarmos bem a lama, teremos belas lótus; se usarmos bem o sofrimento, produziremos felicidade.”

Alegria x dor
Pelo menos aqui no Ocidente, a noção de que o sofrimento possa gerar felicidade é, no mínimo, contraintuitiva. Aprendemos desde cedo a tratar a alegria e a dor como sentimentos opostos: somos obcecados pelo primeiro e evitamos o segundo como quem foge da peste — como se fosse possível levar uma vida 100% feliz e livre de tristezas.

Basta olhar para os lados (ou para si mesmo) para perceber que essa dinâmica tem produzido tudo — menos felicidade. Investimos tempo e dinheiro na compra alucinada de carros, casas, jóias, bolsas, sapatos, tablets e celulares de última geração na esperança de que eles nos deixarão mais satisfeitos. E, no entanto, nunca fomos tão infelizes.   

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A despeito do que mostram as redes sociais — e sua enxurrada de selfies “descoladas” — o Brasil é líder mundial em transtornos de ansiedade e um dos cinco países com maior incidência de depressão em todo o globo, segundo dados da Organização Mundial de Saúde. Nossa solução para esses problemas? Mais compras, mais TV, mais balada, remédio e bebida, mais entretenimento, mais… 

“O maior tormento da civilização moderna é não saber lidar com o sofrimento e encobri-lo com todo tipo de consumo. (…) Mas, a menos que consigamos encarar nosso martírio, não estaremos livres e presentes para a vida, e a felicidade vai continuar nos escapando.”
Thich Nhat Hanh

Somos todos lótus
Não é preciso ser budista para entender — e aplicar — a sabedoria de Thich Nhat Hanh — ou Thay, que significa “mestre”, como o chamam seus discípulos. Mas como é possível conviver com tantas aflições — medo de ser abandonado, insatisfação com a aparência, revolta por ter perdido o emprego, culpa por beber demais e etc — sem ser engolido por elas?

O primeiro passo — e é disso que trata esse primeiro post — é aceitar o sofrimento sem julgá-lo, a exemplo do que faz a flor de lótus. Seus botões desabrocham triunfantes a cada dia não porque lutem contra a água, os insetos e a sujeira — mas porque os aceitam. Da mesma forma, segundo Nhat Hanh, acolher nossas angústias torna o fardo (e a vida) mais leve.

Embora simples, a tarefa exige coragem e persistência. Quem já perdeu um ente querido, passou por uma grave doença, foi traído ou vítima de violência (para ficar apenas em alguns exemplos) sabe que nessas horas a dor é tão profunda que só parece haver lodo: nada de sol, superfície e muito menos flor de lótus.

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O monge vietnamita Thich Nhat Hanh: acolher o sofrimento sem julgá-lo torna o fardo mais leve

Ciente dessa dificuldade, Thich Nhat Hanh propõe exercícios rápidos de respiração, caminhada e atenção plena para localizar, no corpo, onde se escondem essas agonias — sem tentar renegá-las ou escondê-las. Ao tratá-las com compaixão, damos o primeiro passo para a cura.   

Tão logo apareça o primeiro sinal de sofrimento, pare e siga a sua respiração. Não tente negar emoções desconfortáveis, escondê-las ou expulsá-las. Apenas se concentre nas seguintes palavras enquanto puxa e solta o ar:

Inspirando, sei que a dor está aqui.
Expirando, digo “oi” para meu sofrimento.

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Engana-se quem pensa que a simplicidade deste exercício o torna menos poderoso. A cada respiração consciente, você vai ver que corpo e mente se unem no momento presente e lhe trazem enorme liberdade. Nesse instante, aquele diálogo interno cessa — sua mente fica mais clara e a dor desaparece.

“Em apenas duas ou três respirações com total atenção você vai perceber que as mágoas e tristezas com relação ao passado dão uma pausa, assim como a incerteza, o medo e as preocupações sobre o futuro” diz Nhat Hanh. “O sofrimento é uma energia; a atenção plena é outra. Podemos usá-la para começar a acolher a dor.”

Desligue a TV
Segundo o budismo (e o bom senso), ninguém está livre do sofrimento — até o Buda passou por maus bocados antes de alcançar a iluminação. Mas nem sempre nos damos conta de que estamos sofrendo. Estamos acostumados a mascarar o que nos incomoda com todo tipo de distração — como se, ao não olhar para a dor, ela fosse desaparecer.

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Somos tão bons nisso que, muitas vezes, só é possível identificar problemas como baixa autoestima, intolerância, orgulho, revolta e sentimentos de inferioridade, culpa e vergonha a partir de seus efeitos nefastos no dia a dia.

Se você é do tipo que se entope de junk food com frequência, tem mais sapatos do que é possível usar nesta encarnação, vira madrugadas no vídeo-game, nunca tira férias do trabalho ou deixa a TV ligada apenas por “companhia” — ou seja, está sempre com a “cabeça ocupada” –, fique esperto: você pode estar maquiando uma dor profunda.

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“Quando sofremos, temos vontade de fugir de nós mesmos e nos entupir de porcarias e entretenimento — qualquer coisa para afastar nossa mente da dor que está lá”, diz Nhat Hanh. “Não funciona. Podemos nos anestesiar por um breve período, mas o sofrimento quer atenção e vai supurar até conseguir.”

Carinho de mãe
Qualquer que seja a sua dor — escancarada ou escondida –, respirar com atenção plena lhe dará a energia necessária para avançar no processo de cura. Agora que você reconheceu e aceitou sua existência, pode embalá-la com a mesma ternura de uma mãe com seu filho:

Bom dia, minha dor, minha tristeza, meu medo. Estou vendo você. Estou aqui. Não se preocupe.

“Mesmo que a mãe não entenda por que a criança está sofrendo, apenas o fato de tomá-la nos braços com afeto lhe traz alívio”, diz Thich Nhat Hanh. “Se reconhecermos e embalarmos o sofrimento enquanto respiramos com atenção já ficaremos tranquilos.”

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Cena do filme DivertidaMente, da Disney: A Alegria acolhe a Tristeza em uma representação dos nossos sentimentos

O monge, no entanto, reconhece que abraçar o sofrimento é a última coisa que queremos fazer, sobretudo em casos extremos como a depressão. Mas mesmo em situações extremamente dolorosas a respiração com atenção plena pode ajudar — e muito.

“Abraçar e reconhecer esse enorme sofrimento sem julgá-lo não é o mesmo que se entregar a ele”, diz Thich Nhat Hanh. “Uma vez que você deu atenção a essa dor, ela se torna menos impenetrável e mais fácil de ser trabalhada. Então você tem a chance de olhar profundamente para essa aflição, com compaixão, e entender por que ela veio até você. A dor está tentando chamar a sua atenção, te dizer alguma coisa, e agora você tem a oportunidade de ouvi-la.”

Chega de flechas
Segundo os ensinamentos budistas, quando você leva uma flechada sente dor no lugar onde foi atingido. Mas se uma segunda flecha o acertar no mesmo local, você não vai apenas sofrer em dobro — a agonia será dez vezes maior.

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“As coisas desagradáveis que às vezes acontecem na vida — ser rejeitado, perder um objeto valioso, reprovar em um teste, se ferir em um acidente — são análogas à primeira seta; elas causam uma certa dor”, diz Thich Nhat Hanh. “A segunda flecha, disparada por nós mesmos, é a nossa reação, as histórias que contamos a nós mesmos e a nossa ansiedade. Todos esses pensamentos dilatam o sofrimento.”

Em outras palavras, ao criar histórias com base em julgamentos (Como eu pude ser tão idiota?), medo (E se isso não acabar nunca?) ou raiva (Eu não mereço isso!) pioramos o que já está ruim. Resultado: as angústias, arrependimentos e preocupações passam a ocupar um espaço desproporcional na nossa mente.

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“Parte da arte de sofrer bem é aprender a não ampliar a dor se deixando levar pelo medo, pela raiva e pelo desespero.”
Thich Nhat Hanh

Em vez de desperdiçar energia se condenando e se ferindo ainda mais, o monge vietnamita nos aconselha a reconhecer o sofrimento real por meio da respiração. A dor está lá, é verdade; mas o que também está ali é o fato de você estar vivo:

Inspirando, sei que estou vivo
Inspirando, reconheço meus olhos; expirando, sorrio para os meus olhos.

Ao fazer isso, duas coisas acontecem. Primeiro, passamos a ter a dimensão exata do nosso calvário. Em segundo lugar — e esse é um passo fundamental para começar a construir a felicidade, como você verá nos próximos posts –, paramos de alimentar o suplício.

“Buda disse que nada sobrevive sem comida”, diz Thich Nhat Hanh. “Isso vale não somente para a existência física, mas também para os estados da mente. O amor precisa ser cultivado para durar; da mesma forma, o sofrimento subsiste porque o alimentamos.”

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De acordo com Nhat Hanh, temos o péssimo hábito de ruminar desesperos, arrependimentos e tristezas. Mastigamos, engolimos, regurgitamos e engolimos novamente todo o nosso sofrimento ao andar, trabalhar, comer ou falar. Isso nos torna reféns do passado, do futuro e das preocupações do presente, e nos impede de viver nossas vidas plenamente.

Para desabrochar, a lótus beneficia-se do lodo, mas sabe que não pode carregá-lo para a superfície. O mesmo vale para a gente. 

 

© Espaço Govinda (www.espacogovinda.com.br). Proibida a reprodução total ou parcial deste post sem a expressa autorização do autor. Citações estão liberadas desde que forneçam créditos ao site e link para o conteúdo original.

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